O PT de Londrina
A criação do PT de Londrina é paralela à fundação do PT Nacional, que se deu em 10 de fevereiro de 1980. Na verdade, o movimento pró-fundação do PT Nacional começou antes, em 13 de outubro de 1979, numa reunião que aprovaria uma declaração política. Em 10 de fevereiro de 1980, a Comissão Provisória Nacional, reunida no Colégio Sion, em São Paulo, com mais de dois mil simpatizantes, aprovou o Manifesto do Partido dos Trabalhadores. Finalmente, em 31 de maio e 1º de junho de 1980, o PT realizou um Encontro Nacional, que aprovou seu programa e seu estatuto.
Neste mesmo período, dois grupos discutiam a fundação do PT de Londrina. Um dos grupos era formado por professores, opositores sindicais e profissionais liberais. O segundo grupo tinha vínculos com o PCBR (Partido Comunista Brasileiro Revolucionário). Mais tarde recebeu integrantes da esquerda do PMDB.
As primeiras reuniões para a criação do Partido foram feitas no Posto Três Marcos e no Colégio Marista de Londrina. Este grupo reunia Osvaldo Lima, contador e que à época trabalhava na Sercomtel; Vander Rodrigues, professor, Joaquim Borges e José Maschio, bancários, o sindicalista Vicente Salomão e Arno Giesen, entre outros.
A formação da Comissão Provisória, já iniciada em 1979 só foi concretizada em 1980. O trabalho de filiação para a regularização da legenda foi intenso, não somente em Londrina, mas em todo o Paraná, pois o Partido precisava ter um número mínimo de filiados para garantir a sua existência. Osvaldo Lima, em entrevista concedida em 03/04/07, afirmou que ele foi o que mais fez sindicalizações em Londrina. No entanto, este grupo também teve que perfazer toda região Norte do Estado para garantir as filiações.
O filiado número 1 do PT Londrina foi Justino Alves Guimarães, um catador de papel, que morava na favela da Caixa Econômica Federal, hoje Nossa Senhora da Paz. O segundo foi o professor Vander Rodrigues, que também foi entrevistado em 03/04/07.
O médico Bruno Piancastelli Filho foi o primeiro presidente do PT em Londrina. A comissão executiva ainda tinha como vice-presidente o sindicalista Vicente Salomão, a professora Lídia Megumi Saik como secretária e Ayoub Hanna Ayoub como tesoureiro. Em 1981, o PT já possuía cerca de 800 filiados, imbuídos de propostas políticas transformadoras, na luta pelo fim do regime militar e pelo restabelecimento da democracia, como forma de combater as desigualdades sociais.
Segundo Antonio Kasprovicz, presidente do Partido na gestão 2004-2007, a conquista das direções sindicais foi o próximo passo para consolidar o partido em Londrina. Obtiveram-se vitórias nas categorias dos Bancários, dos Empregados na Saúde e na Construção Civil.
Um grande espaço de projeção do partido e um dos momentos de participação mais significativos, de acordo com o depoimento do fundador Vander Rodrigues foi a experiência na favela da Caixa Econômica Federal e do Jardim Marabá. "(...) fomos lá e conversamos com os moradores, ouvimos, (...) foi um momento bom para o PT se articular, e aí começamos a participar", afirmou Vander Rodrigues em depoimento à Janaína Hilário para sua dissertação. Com o movimento organizado pelo PT junto aos moradores, conseguiu-se impedir que os moradores fossem retirados do local e levados para uma região oposta da cidade. Formou-se a associação de moradores da favela da Caixa Econômica, que passou a lutar pela urbanização do local.
Em 1981, os militantes do PT de Londrina participaram de um protesto na Concha Acústica de Londrina, que deveria receber o então sindicalista Luís Inácio da Silva, o Lula, impedido de comparecer por conta da Lei de Segurança Nacional, da ditadura militar.
O ano de 1982 foi um marco na história do PT de Londrina. Sob égide do voto vinculado e da Lei Falcão, o PT lançou uma chapa completa para concorrer desde vereador até o governo do Estado. Concorreu ao Senado o operário Isaias de Santana, ao governo do Estado concorreram o advogado trabalhista Edésio Passos e seu vice foi o médico de Londrina, José Luiz da Silveira Baldy. É Prefeitura de Londrina concorreram Osvaldo Lima e, como vice, o médico Luiz Eduardo Cheida, recém chegado da ala de esquerda do MDB.
A partir de 1983, chegaram ao Partido integrante ligados à Igreja Católica e estudantes universitários. Alguns integrantes dos setores progressistas da Igreja Católica, juntamente comas pastorais e as Comunidades Eclesiais de Base aturaram no partido desde a sua constituição.
O PT também teve participação importante na luta pela Reforma Agrária na região de Londrina, sempre em sintonia com os movimentos sociais no campo. Desde o "ato pioneiro dos sem-terra no Paraná", marcado pela ocupação da área da antiga Colônia Penal Agrícola de Tamarana, o PT de Londrina firmou seu compromisso com a luta dos trabalhadores sem-terra.
Em 1985 elegeu-se uma nova direção, que foi disputada por duas chapas: "Articulação â?? PT de massas", ligada às Pastorais da Igreja Católica e a chapa "PT de luta e de massas", formada por sindicalistas, membros dos movimentos populares, profissionais liberais, intelectuais e militantes que apoiavam a direção que estava à frente do Partido. A segunda chapa foi a vencedora das eleições e o presidente eleito foi Antônio Roberto Correia. Neste período o PT já possuía cerca de 1.700 filiados.
Em 1986, o PT londrinense, embora não tenha elegido um nome local, lançou candidatos em todos os níveis: governador, senador e deputados. Dois anos depois foi eleito um novo diretório municipal, presidido pelo sindicalista Onaur Ruano e composto pelos integrantes das duas chapas que concorreram: "Articulação" e "Construindo o Socialismo". Neste período também se organiza o movimento negro em Londrina. A militância tinha uma presença muito enraizada em todos os movimentos da sociedade.
Apostando na organização partidária de base, ainda em 1988 o PT londrinense elegeu seu primeiro vereador: Luiz Eduardo Cheida foi o candidato mais votado à Câmara Municipal, com 5.300 votos, um recorde, um vez que os demais vereadores não obtinham muito mais do que 2 mil votos. A segunda mais votada do Partido foi a líder comunitária Dona Lima, ligada ao movimento do sem-terra.
Em 1989, primeira eleição em que Lula concorreu à Presidência da República, a motivação nas ruas era muito grande e o contra-ataque veio na mesma intensidade, avalia Antônio Kasprovicz.
Nas eleições de 1990, os bancários Paulo Bernardo e Nedson Micheleti foram candidatos a deputado federal
Na convenção de 1991, em nova eleição, houve composição entre os dois segmentos, os mesmos que haviam concorrido à eleição anterior. O novo presidente eleito foi o sindicalista bancário Joaquim Borges Pinto. Sob sua presidência, o PT londrinense ampliou seu processo de organização política, sob os fundamentos da autogestão e da democracia interna.
Em 1992, lançando Luiz Eduardo Cheida como candidato, o Partido dos Trabalhadores elegeu seu primeiro prefeito em Londrina. Para a Câmara de Vereadores foram eleitos Francisco Roberto e Lygia Pupatto. Foi um período de consolidação política do PT em Londrina, com o surgimento de novas lideranças.
A primeira administração petista foi marcada pelo entusiasmo e pelo compromisso com as mudanças de prioridades nas políticas públicas. A primeira tarefa foi a organização da gestão, fazendo uma administração mais próxima da população. Em seguida, centrou-se esforços na estruturação de políticas sociais, na área da criança e do adolescente, no combate à pobreza, na política cultural e da educação, foi realizada uma grande ação assistir às crianças antes abandonadas nas ruas, foram criadas escolas profissionalizantes nos bairros, escolas de artes, teatro, dança e ballet. Nesse período iniciou suas atividades a Coordenadoria Especial da Mulher, o programa médico de família foi implantado na política municipal de saúde e foi quebrado o monopólio do transporte coletivo na cidade. Foram criados o orçamento participativo e o programa Londrina Linda, que atendia as demandas mais imediatas dos bairros.
Nesse governo, com Nedson Micheleti à frente da Cohab, foi realizada a primeira Conferência Municipal da Habitação. A urbanização das favelas foi uma prioridade escolhida. O União da Vitória foi asfaltado. A Vila Marísia recebeu água, energia e saneamento, os antigos barracos foram substituídos por casas de alvenaria construídas em regime de mutirão e o bairro se tornou a Vila Formosa. O Jardim Marabá foi urbanizado e os moradores da favela do Ribeirão Quati foram transferidos para outros lotes da Cohab.
Em 1994, Paulo Bernardo e Nedson Micheleti foram eleitos deputados federais. Neste período, a professora Rose Friedman era a presidente do partido em Londrina.
Na convenção de 1996, os dois deputados federais disputaram prévia que escolheria o candidato do partido à Prefeitura do Município. Vencedor em meio a muitas divergências internas, Paulo Bernardo representou o partido na disputa, mas os resultados eleitorais foram ruins. O PT não manteve a prefeitura, elegeu apenas um vereador e passou por uma fase de acefalia, na qual voltou a organizar-se como comissão provisória na cidade. A atuação do partido dependia exclusivamente dos mandatos existentes.
A reconstrução veio em 1997, com a reorganização do Diretório Municipal, pela eleição da chapa Reconstruindo o PT, liderada por André Vargas. Iniciava-se ali uma fase de unificação e modernização do Partido. Com organicidade e um diretório articulado com as lutas populares, o PT londrinense passou a ter jornais periódicos que retratavam o cotidiano da cidade e denunciava desmandos. O Partido passou a ter dinâmica, com a presença engajada nos vários segmentos. Numa campanha que inovou por não realizar comícios - um sinal da mudança de práticas políticas tradicionais - o PT de Londrina, organizado, conseguiu eleger Nedson Micheleti para a Prefeitura e dois vereadores em 2000: André Vargas e Márcia Lopes.
Dessa vez, o desafio de governar Londrina era muito maior. O partido recebia a cidade em crise, após a cassação de um prefeito por corrupção. O PT tinha os compromissos de reorganizar a administração municipal e resgatar a auto-estima do londrinense. O governo municipal foi estruturado em três linhas: reforma da gestão pública, prioridade na questão social e promoção do desenvolvimento local.
A reforma da gestão pública envolveu aspectos administrativos, tributários e financeiros. Logo no início do mandato o prefeito Nedson Micheleti enviou projeto de reforma administrativa à Câmara Municipal, que propunha a diminuição do número de secretarias, racionalizando a máquina administrativa. As secretarias de Recursos Humanos e de Administração deram origem à nova Secretaria de Gestão Pública. As obrigações com fornecedores foram paulatinamente cumpridas. A dívida do município com credores financeiros foi renegociada. Ao lado dessas medidas, a preocupação com justiça fiscal: uma nova planta de valores imobiliários foi enviada à Câmara Municipal e recebeu aprovação dos vereadores, corrigindo antigas distorções tributárias.
Ao mesmo tempo em que reorganizava a administração pública, o governo municipal estruturava um amplo programa social, que tinha como prioridade o atendimento às crianças e adolescentes. Vários programas foram criados: na assistência social o Bolsa Escola Municipal e o Viva Vida, que atende crianças no período do contraturno escolar; a Rede da Cidadania, um complexo de projetos culturais destinados a democratizar o acesso às artes e à cultura; no esporte, o Projeto Futuro, possibilitando a prática educativa da atividade física a milhares de crianças e jovens em toda Londrina; o Programa Saúde da Família - uma nova versão do médico de família - foi retomado. A COHAB, após a renegociação de suas dívidas com a Caixa Econômica Federal, voltou a construir habitações em nosso município.
Também era preciso adotar novas bases para o desenvolvimento local. Gerar empregos com sustentabilidade era o objetivo central. Na agricultura, retomou-se com força a ação extensionista, dando assistência ao produtor rural, com ênfase na produção familiar. A Companhia de Desenvolvimento promoveu uma política valorizadora do empreendedor local, prestigiando o pequeno e médio empresário da cidade. Com a atração de novas universidades e a realização das obras de infra-estrutura do Parque Tecnológico, consolidou-se a vocação inovadora do município, firmando Londrina entre os pólos científicos e tecnológicos do país. Quanto aos recursos naturais, valorizou-se a educação ambiental de nossas crianças e jovens, ao mesmo tempo em que se implantou o programa de coleta seletiva do lixo urbano, através da atuação da CMTU e de ONGs parceiras.
Essas diretrizes logo trouxeram reconhecimento ao governo do PT em Londrina. Diversos prêmios, nacionais e internacionais, foram conferidos à cidade. Entre os de mais destaque está o de â??Prefeito Amigo da Criançaâ? que recebeu em 2004 da Fundação Abrinq com apoio do Fundo das Nações Unidas para a Infância e Adolescência (Unicef), em parceria com as fundações Ford e David e Lucile Packard, e também da Frente Parlamentar pela Criança e pelo Adolescente, em reconhecimento às políticas de proteção integral à população infanto-juvenil, conforme determina o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Nedson está classificado preliminarmente para receber pela segunda vez o mesmo reconhecimento para a avaliação final da gestão governamental que vai de 2005 a 2008.
Outros prêmios importantes são o "Prêmio Galba de Araújo" à Maternidade Municipal Lucilla Ballalai, referência nacional no tratamento à gestante; o do Ministério da Saúde pela boa aplicação dos recursos do Programa Saúde da Família. A COHAB de Londrina recebeu o "Selo de Mérito da ABC" da Associação Brasileira de COHABs - em 2003 pelo Projeto Casa Lara, para atender idosos; em 2005, pela Parceria com a OCIP, pelo Projeto Onde Moras, que constrói unidades habitacionais com materiais de demolição e em 2006, pelo trabalho de pesquisa pós-ocupação nos imóveis destinados à famílias de baixa renda. Em reconhecimento ao trabalho exemplar da administração petista na área de habitação, o presidente da COHAB de Londrina eleito em 2003 e reeleito 2005 para a presidência da ABC.
Também são premiados: o projeto "Reciclando Vidas", relativo à coleta seletiva de lixo, a Rede da Cidadania pela Unesco, o â??Palavras Andantesâ?, pelo índice de leitura nas escolas do município, o Ballet de Londrina recebeu o prêmio Klaus Viana de dança pelo espetáculo Fale Baixo, prêmio pelo projeto "Cidade Eficiente em Energia Elétrica", pela gestão de energia na sede da Prefeitura, prêmio do Ministério da Saúde pela boa aplicação dos recursos do Programa Saúde da Família; e prêmio "David Capistrano", do Ministério da Saúde, pela implantação da Policlínica Municipal e como reconhecimento a experiências inovadoras implantadas no Sistema Único de Saúde (SUS), dentro da política de humanização do ministério.
Na área de Assistência Social, o modelo aplicado em Londrina é considerado uma referência para o país, tendo recebido prêmio de Melhores Práticas de Inclusão Produtiva. Teve também trabalho aprovado no Congresso Internacional de Gestão Local de Assistência Social.
E, por fim, o maior dos reconhecimentos: a população de Londrina reelegeu Nedson Micheleti nas eleições municipais de 2004, apostando na consolidação de um modelo de gestão e de desenvolvimento local no qual se aliam justiça social e desenvolvimento econômico.
Nos últimos anos, a representação política do PT londrinense foi fortemente ampliada. Nas eleições gerais de 2002 foram eleitos André Vargas e Paulo Bernardo, respectivamente à Assembléia Legislativa do Paraná e à Câmara Federal. Em 2004, a vereadora Márcia Lopes foi chamada a exercer o cargo de Secretária Nacional de Assistência Social, do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, posto do qual foi removida para assumir a Secretaria-Executiva daquele Ministério, onde perneceu até o início de 2008. Naquele mesmo ano, o PT ampliou de duas para três as cadeiras de sua bancada na Câmara Municipal de Londrina, elegendo os vereadores Gláudio Renato de Lima, Lourival Germano e Maria Angela Santini.
Em 2005, Paulo Bernardo licenciou-se do mandato de Deputado Federal para tornar-se o primeiro político da história de Londrina a ser nomeado Ministro de Estado no Brasil, assumindo o Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão do Governo Federal. Logo após, o ex-presidente do diretório municipal, Onaur Ruano, deixou a presidência do IAPAR para ser nomeado Secretário Nacional de Segurança Alimentar. Em 2006 a ex-vereadora Lygia Pupatto deixou a reitoria da UEL para exercer o cargo de Secretária de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior. E André Vargas, terminando seu mandato de Deputado Estadual, foi eleito Deputado Federal, com uma votação de 83.222 votos.
Em 2007, nova eleição direta escolhe o Diretório Municipal do PT elegendo Sidnei Santos, oriundo do movimento estudantil para a presidência do Partido.Hoje, o PT é um partido plenamente consolidado no quadro político londrinense. Desde o ano de 1999, período de nossa reorganização, o Partido marcou presença nos governos e, de 2000 para cá, os militantes assumiram várias funções nos governos para executar políticas que o Partido vinha propagando há anos.
Algumas ações ainda levam tempo para amadurecer e desafios estão colocados. A renovação dos quadros partidários, a ampliação do diálogo com outros segmentos da sociedade, a formação de lideranças jovens, a ampliação da participação popular e o aperfeiçoamento das práticas democráticas na gestão de governos, são os maiores destes desafios.
Nota: Agradecimento especial à Janaína Carla S. Vargas Ilário, cujas informações contidas em sua dissertação de mestrado â??PARTIDO DOS TRABALHADORES: UMA NOVA CULTURA POLíTICA? Repensando aspectos da história do Partido e da sua experiência em Londrina (em muito nos 980-1996)â? ajudou para complementar a história do PT de Londrina.